Em um cenário onde o acesso à cultura e à educação ainda é um desafio para muitas comunidades, iniciativas como o projeto Cultura na Faixa se tornam fundamentais para promover transformação social. O projeto, realizado pela ONG Se Essa Rua Fosse Minha (SER) em convênio com a Transpetro, tem impactado a vida de moradores do Jardim Weda e de outras comunidades carentes.
Com uma trajetória marcada pelo compromisso com a equidade e o desenvolvimento humano, a coordenadora social do projeto, Danúbia Rodrigues, compartilha sua visão sobre a importância da cultura como ferramenta de inclusão.
Nesta entrevista, a coordenadora relata como sua vivência na Baixada Fluminense moldou seu engajamento social e profissional. Desde sua infância até sua atuação no terceiro setor, ela fala sobre os desafios enfrentados, as histórias que marcaram sua caminhada e o impacto concreto do Cultura na Faixa na vida dos moradores.
Cultura na Faixa: Você pode compartilhar um pouco da sua história? Onde nasceu e como foi sua infância?
Danúbia Rodrigues: Nasci na Baixada Fluminense, na cidade de Queimados, onde moro até hoje. Minha infância foi marcada por muitas dificuldades. Fui criada pela minha avó, que era lavadeira e analfabeta, mas de uma sabedoria admirável, e por minha mãe, que foi mãe solo e trabalhou como empregada doméstica.
CF: O que a motivou a seguir o caminho do trabalho social e cultural? Sempre foi um desejo seu ou isso aconteceu ao longo da vida?
DR: A desigualdade social. Percebi desde cedo que uma parte da população, na qual eu também me encontrava, não tinha acesso a direitos básicos, muitas vezes por falta de informação. Vivemos em uma sociedade extremamente desigual, onde não existe meritocracia (sistema social onde todo indivíduo é capaz de prosperar somente com suas capacidades sem precisar da ajuda da sociedade, Estado ou família). Quando se é mulher, negra, pobre e oriunda da periferia, as dificuldades triplicam.
Sempre estive disposta a viabilizar condições para que as pessoas tivessem uma vida melhor. Considero essa minha missão, apesar de todas as adversidades. Na minha família, sou constantemente procurada para esclarecer dúvidas e oferecer orientação. Eles acham que sei tudo! (risos).
CF: Recentemente, você foi promovida à coordenadora social do projeto, o que isso representa para a sua carreira?
DR: É um divisor de águas, uma mudança gigantesca. É a oportunidade de adquirir habilidades e competências com um projeto dessa envergadura que é o Cultura na Faixa.
CF: Antes de chegar ao Cultura na Faixa, quais foram os projetos ou experiências que mais marcaram sua trajetória?
DR: Minha experiência profissional sempre esteve ligada ao atendimento de pessoas, promovendo qualidade de vida. Acredito que estamos no mundo para servir, e servir com excelência.
Sempre atuei na área da saúde. O ato de cuidar me fascina, seja oferecendo alívio em momentos de dor ou simplesmente ouvindo um desabafo. Quando alguém me diz: “Você não sabe o quanto me ajudou”, isso não tem preço.
Muitas situações marcaram minha trajetória, não apenas nos atendimentos diretos, mas também ao ajudar pessoas a descobrirem seu próprio potencial. Um dos momentos mais impactantes foi quando consegui intervir no caso de uma idosa em situação de vulnerabilidade e garantir êxito no seu tratamento.
CF: Como surgiu sua relação com a comunidade do Weda e o que a levou a atuar diretamente nesse território?
DR: Cheguei ao projeto Cultura na Faixa por meio de Geraldo Bastos (coordenador de Recursos Humanos e Mobilização Social do projeto), que me apresentou a iniciativa. O território do Weda era uma das comunidades onde o projeto seria implementado, conforme o cronograma de execução. Esse foi nosso primeiro grande desafio: atuar em um local desprovido de políticas públicas, onde o único equipamento existente é uma escola municipal.
Ainda temos mais dois territórios para a implantação do projeto, e seguimos firmes na missão de ampliar esse impacto.
CF: Quais foram os maiores desafios que enfrentou ao longo da sua caminhada profissional até aqui?
DR: Meu maior desafio até hoje é manter um atendimento humanizado. Vivemos na era do imediatismo, e isso tem gerado apatia nas relações, o que é muito preocupante.
Atuar no terceiro setor exige uma escuta qualificada. Não podemos nos ater apenas aos fatos narrados; é necessário ter uma visão holística dos acontecimentos. Se eu for indiferente à dor do outro, sou eu quem preciso de tratamento. Essa essência é fundamental para um atendimento de qualidade, sempre aliado ao conhecimento técnico.
CF: Poderia compartilhar uma história marcante de algum morador ou participante do projeto que impactou sua vida?
DR: Em uma palestra sobre direitos humanos realizada na sede do projeto, no Jardim Weda, a palestrante Thamyres Dutra, do coletivo de artistas e produtores negros independentes de Itaguaí, falava sobre diversas formas de violação de direitos quando, de repente, uma participante saiu chorando compulsivamente.
Fomos até ela para entender a situação e oferecer acolhimento. Durante a conversa, ela percebeu que estava em um relacionamento abusivo e teve a coragem de buscar ajuda. Algum tempo depois, ela voltou à sede do projeto para agradecer, dizendo que conseguiu sair daquela situação. Estava visivelmente transformada: mais alegre, bem arrumada, com uma nova energia. Esse episódio mostrou como, em pouco tempo de atuação, já estamos conseguindo impactar vidas por meio da informação.
CF: Na sua visão, como a comunidade do Weda se beneficia de projetos como o Cultura na Faixa? Que transformações ele pode trazer?
DR: Para a comunidade, o projeto representa esperança de um futuro melhor. Ele permite que os moradores sonhem com uma realidade diferente daquela que vivenciam diariamente.
O Cultura na Faixa mostra que o Weda também tem direito a receber coisas boas. Muitos moradores acreditavam que nada de positivo poderia acontecer na região. O projeto vem para mudar essa percepção, promovendo o desenvolvimento de habilidades, autoestima e equilíbrio, sempre com um olhar inclusivo e educativo




